O Espetáculo | The Spectacle

Vive-se atualmente em uma sociedade capitalista pós-industrial, nesta sociedade, os bens considerados essenciais para a sobrevivência já são produzidos com êxito e já se tornaram banalizados, os artigos de primeira necessidade já são facilmente obtidos, portanto esse tipo de indústria que fabricava ou fabrica esse tipo de mercadoria já não usufrui da mesma importância que tinha em tempos passados, não incentivando, assim, o consumo que gira as engrenagens do capitalismo que tem como requisito para se manter funcionando atribuir valor de troca a praticamente todas as coisas, táteis ou não, transformando-as em mercadorias e incentivando o consumo.

A partir dessa mudança na sociedade capitalista, foi preciso criar uma nova forma de incentivar o consumo, criar uma nova necessidade, criar uma nova indústria para tal necessidade, assim surge a Indústria Cultural, sobretudo na sociedade ocidental e mais tarde se dissemina para todo o mundo com o processo de globalização, que busca expandir cada vez mais o mercado, principalmente de nações com economia mais desenvolvida, e transforma a Cultura em mercadoria para assim, manter o capitalismo em funcionamento.

A Indústria Cultural tem objetivos puramente econômicos, apenas serve ao sistema e a nada mais, manipula o indivíduo, que sobre a sua ótica não passa de um consumidor, por meio da mídia, seu maior instrumento e o de maior alcance. Essa indústria sobrevive da repetição a exaustão de tendências, conceitos, etc., para que se tornem obsoletos rapidamente e facilmente substituíveis, tudo deve ocorrer num espaço muito curto de tempo para que a Cultura não deixe de ser consumida, gerando o consumismo.

Em decorrência disso, o meio rural já não é mais atrativo para essa sociedade, justamente pelo baixo valor das mercadorias produzidas e pela desvalorização do trabalho braçal em geral, sobretudo na agricultura, isto força uma migração maciça de indivíduos do campo para a cidade para perseguir a ilusão criada pela nova indústria, a de oportunidades iguais a todos, mas essa representação criada é bem diferente da realidade que empurra os menos favorecidos para as margens dessa sociedade, sobrevivendo em meio a péssimas condições. Essa superpovoação do meio urbano em detrimento do meio rural favorece a globalidade, a competição desenfreada e quase sem restrição de todo o indivíduo por tudo o que pode ser oferecido pela indústria, uma avançada nova fase da globalização, muito mais agressiva, que impõe a agilidade à Indústria Cultural, que a cada dia ganha mais velocidade e alcance a todo o mundo.

A nova indústria tem um poderio tão grande, que aliena os ditos consumidores, estes já não têm mais as suas próprias opiniões e sim a da indústria, há perda de identidade, porque quanto mais indivíduos acreditando nas representações superficiais da Indústria Cultural, mais fácil será a manipulação e a massificação.

Tudo o que se tem atualmente, portanto não passa de uma mera representação da realidade, uma acumulação de espetáculos, repetições, uma sociedade baseada em uma imagem distorcida. A Indústria Cultural é o espetáculo, produto da atual sociedade capitalista pós-industrial, que por sua vez é vítima de sua própria criação, tornando-se, assim o próprio espetáculo, apenas uma representação de sua real condição.

Texto elaborado para a matéria de Antropologia visual, com referência em ” A Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord.

We are living in a post-industrial capitalist society, in this society the goods considered essential for survival are already successfully produced and have already become trivialized, basic necessities are already easily obtained, so this type of industry that manufactures this type of commodity no longer enjoys the same importance that it had in past times, thus not encouraging the consumption that turns the gears of capitalism that has as a requirement to keep working, assign value of exchange to practically all things, tactile or not, transforming them into commodities and encouraging consumption.

From this change in capitalist society, it was necessary to create a new way of encouraging consumption, creating a new need, creating a new industry for such a need, so the Cultural Industry arises, especially in Western society and later World with the process of globalization, which seeks to expand the market more and more, especially of nations with more developed economy, and turns Culture into merchandise to keep capitalism in operation.

The Cultural Industry has purely economic objectives, it only serves the system and nothing else, it manipulates the individual, who on his point of view is nothing but a consumer, through the media, his greatest instrument and the most far reaching. This industry survives from repetition to exhaustion of trends, concepts, etc., so that they become obsolete quickly and easily replaceable, everything must happen in a very short space of time so that the Culture is consumed, generating consumerism.

As a result, the rural environment is no longer attractive to this society, precisely because of the low value of the goods produced and the devaluation of manual labor in general, especially in agriculture, this forces a massive migration of individuals from the countryside to the city to pursue The illusion created by the new industry, of equal opportunities to all, but this created representation is very different from the reality that pushes the less favored to the margins of that society, surviving in the midst of bad conditions. This overpopulation of the urban environment to the detriment of the rural environment favors globality, the unrestrained and almost unrestricted competition of the individual for all that can be offered by industry, a much more aggressive new phase of globalization that imposes agility to the Cultural Industry, which every day gains more speed and reach to the whole world.

The new industry has such power that it alienates the said consumers, they no longer have their own opinions but the industry’s opinion, there is loss of identity, because the more individuals believing in the superficial representations of the Cultural Industry, the easier it will be the manipulation and massification.

Everything we have today, therefore, is nothing more than a mere representation of reality, an accumulation of spectacles, repetitions, a society based on a distorted image. The Cultural Industry is the spectacle, the product of the present post-industrial capitalist society, which in turn is the victim of its own creation, thus becoming the spectacle itself, only a representation of its real condition.

Text prepared for the subject of Visual Anthropology, with reference in “Society of the Spectacle” by Guy Debord.

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Buenos Aires

Poderia não ter sido uma viagem agradável, afinal o tempo escasso, os altos preços naquele país, bem como o cheiro característico da cidade (que é assunto para outro parágrafo) poderiam realmente desanimar a princípio. Contudo foi uma viagem agradável e falaremos aqui sobre escolhas, sobre conseguir escolher enxergar através de uma boa lente as experiências que a cidade, as ruas, as pessoas e os aromas podem proporcionar e assim encontrar o amor.

Buenos Aires é uma cidade incrível de muitas formas, ela é viva e pulsa através de suas calles, de seu crescimento desordenado e expressivo, de sua gente que apesar de tudo é feliz e gosta de ajudar. Em cada canto, em cada esquina, numerosos turistas a procura de experiências, uma foto, uma história, um gosto, vivenciam essa vivacidade.

Como uma experiência sensorial viva e completa que é, ela tem um cheiro, um aroma característico. A princípio causa estranheza e na verdade não é bom. O mofo, o bolor, a madeira se decompondo das construções antigas inebriadas da humidade misturados à fumaça dos carros e cigarros chegam em ondas generosas às suas narinas em uma brisa fria que só junho na América do Sul possui. Com o passar das horas e dias, o cheiro vai ficando cada vez menos perceptível, só voltando a ser sentido quando solicitado, e como se você quisesse se lembrar de onde está, pede ao vento que sopre de leve.

No rapidíssimo metrô da ciudad, um menino de não muito mais que 8 anos entra no vagão, coloca o seu boné no chão e começou a contar sobre a situação de sua família que não era muito boa, e que estava cantando no metrô em troca de alguns trocados. Logo começa a cantar um rap que tinha composto para a sua querida mãe, mesmo não entendendo muito bem espanhol, consigo captar a mensagem, e então enquanto a criança canta, do outro vagão vem um moço e começa a fazer uma base em beatbox para acompanha-lo, eles não se conheciam, foi um momento único de empatia e amor. Ao terminarem, todo o vagão aplaude em reverência, pois o amor como dizem, está em todo lugar, basta escolher, aceitar e perceber.

Quando se escolhe e aceita a experiência, sempre se é recompensado. Esta pequena história durou apenas três dias, mas o bastante para encher o coração de ternura e crença no que é bom.

Obrigada, Buenos Aires.

It could not have been a pleasant trip, after all the scarce time, the high prices in that country, as well as the city’s distinctive scent (which is a subject for another paragraph) could really discourage at first. However it was a pleasant trip and we will talk here about choices, about being able to see through a good lens the experiences that the city, the streets, the people and the aromas can provide and find love.

Buenos Aires is an incredible city in many ways, it is alive and pulsating through its streets, its disorderly and expressive growth, its people who despite everything is happy and likes to help. In every corner, numerous tourists in search of experiences, a photo, a history, a taste, experience this vivacity.

As a living and complete sensory experience that it is, it has a scent, a characteristic aroma. At first it causes strangeness and is not good. The mould, the wood decomposing from the old buildings inebriated of the humidity mixed with the smoke of the cars and cigarettes arrive in generous waves to your nostrils in a cold breeze that only June in South America owns. With the passing of hours and days, the smell becomes less noticeable, only coming back to be felt when requested, and as if you wanted to remember where you are, you ask the wind to blow lightly.

In the very fast subway of the city, a boy of not more than 8 years enters the car, puts his cap on the ground and began to tell about the situation of his family that was not very good, and he was singing on the subway in exchange for some coins. Soon he begins to sing a rap that he had composed for his beloved mother, even though I do not understand Spanish very well, I can understand the message, and then while the child sings, from the other car comes a young man and starts to make a base in beatbox to follow and help the boy. They did not know each other, it was a unique moment of empathy and love. When they finished, the whole car applauds in reverence, for love as they say, is everywhere, just choose, accept and perceive.

When you choose and accept the experience, you are always rewarded. This little story lasted only three days, but enough to fill the heart with tenderness and belief in what is good.

Thank you, Buenos Aires

Liberdade de ser

Eu gosto de fotografia, de como um olhar muda tudo, de como uma luz pode revelar ou esconder um pedacinho de gente, coisa ou lugar. Mas nem sempre foi assim, eu tinha muita dificuldade em aceitar a minha imagem, nunca estava boa o suficiente. Não queria ser fotografada, era difícil me olhar.

I like photography, how a look changes everything, how a light can reveal or hide a small piece of people, thing or place. But it was not always like this, I had a hard time accepting my appearence, it was never good enough. I did not want to be photographed, it was difficult to look at me.

Dizia então que não gostava de fotografia, que preferia outras formas de arte, não me sentia confortável em me expressar daquela forma.

I used to say that I did not like photography, that I preferred other forms of art. I did not feel comfortable expressing myself in that way.

Quando se passa boa parte da infância e adolescência sofrendo com o bullying, que nem tinha esse nome ainda, eram apenas brincadeiras, é difícil não se convencer de aquilo tudo é verdade, é difícil não se esconder atrás de muros e se calar.

When you spend your childhood and adolescence suffering from bullying, which did not even have that name yet, it was just some jokes, it’s hard not to be convinced that it’s all true, it’s hard not to hide yourself behind walls and stay quiet.

Mas a verdade é que o gosto pela fotografia sempre esteve do lado de lá, só me esperando atravessar a ponte para encontrar. E foi isso que fiz, com muito custo, começando na faculdade, começando a fotografar e depois pouco a pouco me deixando ser fotografada.

But the truth is that the taste for photography was always on the other side, just waiting for me to cross the bridge to find. And that’s what I did, very costly, starting in college, starting to photograph and then gradually letting me be photographed.

A fotografia teve e tem um papel fundamental na minha vida por ter me ajudado a me libertar, por ter me ajudado a me ver como sou, e não como queriam que eu me visse.

The photograph had and has a fundamental role in my life for have helped me to free myself, for have helped me to see me as I am, and not as the others wanted me to see me.

Hoje, me ver por outros olhares não me é mais penoso, é até divertido ver como posso mudar, mas em todos os frames sou eu e apenas eu, e isso não me dá mais medo, pois sei quem sou e sou livre para ser.

Today, seeing myself through other eyes is not painful anymore, it’s even fun to see how I can change, but in all the frames it’s me and it’s just me, and that does not scares me anymore, because I know who I am and I am free to be.

E você? O que te liberta para ser?

And you? What sets you free to be?

Fotografia pela incrível e talentosa/Photography by the amazing and talented: Fernanda Luna